Revista E
Nº 127 - Dezembro de 2007

O
professor e sociólogo analisa a violência no Brasil
Além de
coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade
de São Paulo (USP) e professor titular de sociologia da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o sociólogo
Sergio Adorno tem um vasto currículo. Em 1974, formou-se
em ciências sociais pela USP, e concluiu o doutorado em sociologia
pela mesma universidade, em 1984. O pós-doutorado veio em 1995
- pelo Centre de Recherches Sociologiques sur le Droit et les Institutions
Pénales, em Paris, França. Com a defesa da tese A Gestão
Urbana do Medo e da Insegurança (Violência, Crime e Justiça
Penal na Sociedade Brasileira Contemporânea) obteve o título
de livre-docente, em 1996, pela USP. É também coordenador
da cátedra Unesco/USP de Educação para a Paz, Direitos
Humanos, Democracia e Tolerância. Durante a conversa com a Revista
E, Adorno falou sobre a relação entre pobreza e violência,
analisou a questão da descriminalização das drogas
e abordou o filme Tropa de Elite, de José Padilha. "Não
quero transformar o debate em uma guerra entre bandidos e mocinhos",
comentou a respeito da conduta da polícia e dos criminosos mostrada
por Padilha nas telas. A seguir, trechos.
A sociedade brasileira é violenta? Estamos enganados com
essa história de que o brasileiro é cordial?
O mito da cordialidade já foi contestado há muito tempo.
Chego a defender o argumento de que você pode até escrever
a história social da sociedade brasileira como a história
social e política da violência. A violência sempre
foi um recurso utilizado nas relações de dominação
e de mando - seja nas fazendas, na vida doméstica, seja no plano
da vida política. Veja, por exemplo, que os movimentos de rebelião
popular sempre foram muito contidos com o uso de uma violência
extrema, não se pouparam vidas. Durante o século 19, todos
os movimentos sociais de raízes populares foram reprimidos com
muita violência, como a Sabinada [rebelião autonomista
ocorrida na Bahia, de 1837 a 1838, que chegou a proclamar uma república
baiana] e a Balaiada [revolta de caráter social ocorrida entre
1838 e 1841, no interior do Maranhão]. Na vida doméstica,
o modo como se tratavam os escravos, as crianças, as mulheres
e os desafetos sempre foi com o emprego de muita violência. Há
uma extrema violência ao lidar com as diferenças, quando
você tem de lidar com conflitos, com interesses opostos. Ou seja,
a gente pode dizer que há um lastro de violência tanto
na cultura quanto na política brasileira. Mas não acho
que seja só isso. É claro que há manifestações
de solidariedade. Não gosto de usar o conceito de cultura da
violência como se houvesse uma cultura à parte da cultura
geral. Sabemos que, cientificamente, isso não ocorre. Existem
traços de cultura que, de alguma maneira, estão associados
a outros traços de cultura. Uma espécie de sincretismo.
Podemos creditar
a violência que permeia a sociedade brasileira à maneira
como se deu nossa colonização? Por exemplo, os portugueses
escravizaram índios e negros com uma atitude extremamente violenta.
Certamente a escravidão deixou marcas. Por que se lidou com o
escravo com muita violência? Porque o escravo era coisa, não
era pessoa, era mercadoria. Por isso, a idéia de que você
decide o que quer fazer com a mercadoria, se quer dispor dela produtivamente
ou improdutivamente. Resgatar a dimensão de humanidade dos escravos
é uma tarefa cultural imensa da sociedade. Mas claramente não
conseguimos resultados dos mais adequados porque ainda há desigualdade
entre brancos e negros. Não acho que a gente deva descartar as
heranças escravistas, mas o argumento da herança colonial
também é perigoso. Primeiro, porque, no momento em que
se diz que [a violência] tem causa nas nossas heranças,
reforça-se o argumento da história como algo congelado
no tempo. A história aconteceu lá e continua acontecendo
hoje. Por mais que as nossas heranças pesem, elas são
atualizadas, são reinterpretadas. Não dá para você
achar simplesmente que a herança explica tudo. O problema é
que a sociedade brasileira construiu um Estado que, durante muito tempo,
foi de proteção das classes proprietárias contra
o resto da população. Vivemos em uma sociedade de fundo
conservador, uma sociedade com muitas dificuldades de promover rupturas.
Você acha
que o brasileiro tem um caráter acomodado? Por exemplo, critica-se
que quase não houve reação da população
ao golpe ocorrido em 1964, responsável pela instalação
da ditadura militar no país.
Como sociólogo, tenho uma enorme dificuldade de falar sobre o
caráter nacional brasileiro. Há um clássico estudo
do professor Dante Moreira Leite, daqui da USP, que é um livro
chamado O Caráter Nacional Brasileiro [a obra ganhou uma edição
em 2003 pela Unesp]. Nesse livro, ele questiona essa imagem de que o
brasileiro é mais cordato, mais contemporizador - de alguma maneira
isso está na literatura, no senso comum, na imprensa. Há
brasileiros e brasileiros. Por exemplo, ser brasileiro no Sudeste é
muito diferente de ser brasileiro no Nordeste ou no Norte, ou ser brasileiro
branco é diferente de ser brasileiro negro. Então, é
difícil dizer o que é o Brasil. Acho que é preciso
entender que, provavelmente, o golpe tenha matizes muito diferentes.
Tradicionalmente, a sociedade brasileira não é uma sociedade
polarizada entre duas grandes tendências, de direita e de esquerda,
como aconteceu no Chile ou na Argentina. Você tem matizes na direita,
na esquerda e um grande centro. Você pode dizer que, desses matizes,
houve uma parte da sociedade brasileira que protestou mesmo. Mas foi
cassada, foi expulsa do espaço público, muitos foram perseguidos
politicamente e tiveram suas mínimas garantias constitucionais
suspensas. E também houve uma parte que, de alguma maneira, ficou
em silêncio. Acho que a gente tem de pensar que o cenário
não era homogêneo.
Alguns de seus
textos chamam a atenção para a seguinte pergunta: há
uma dificuldade no Brasil em se cumprir a lei dentro do Estado democrático?
Há uma dificuldade histórica no Brasil em reconhecer a
lei como instrumento de bem comum. Acho que houve, historicamente, uma
identificação da lei com o domínio de classe, o
domínio dos proprietários, dos poderosos. Mas creio que
isso está em processo de mudança, embora seja mais visível
em algumas áreas e menos em outras. O critério de aplicação
das leis e da punição é o seguinte: as leis têm
de ser universais. Mas crimes como os do colarinho-branco têm
um tratamento diferenciado dos crimes cometidos pelos cidadãos
de baixa renda, por exemplo. Quando a lei não é universal,
os cidadãos tendem a reconhecer que ela não é igual
para todos, então prevalece o poder do mais forte. Se você
não se sentar à mesa de negociação através
dos seus representantes e disser: "A lei tem de ser igual para
todos e todos têm de estar submetidos aos mesmos rigores dela,
sejam ricos, pobres, brancos ou negros", é difícil
tentar começar uma discussão sobre uma política
de segurança e de aplicação das leis justa e reconhecida
como legítima. Quando olho algumas outras experiências
do mundo ocidental, vejo que houve muitas lutas para o reconhecimento
de que a lei era para conter arbitrariedades e abusos - abuso de poder
de quem quer que fosse, do Estado ou da sociedade.
Então,
a função da lei seria equiparar todos os cidadãos
de uma sociedade?
Quando fiz ciências sociais aqui na USP, no início dos
anos 70, estudei muito a influência do marxismo na sociologia.
Eu me lembro de ter lido uma parte de O Capital [livro do pensador alemão
Karl Marx (1818-1883)], e a impressão que tive quando tinha 19
ou 20 anos é de que Marx dizia o seguinte: "A lei é
burguesa e é um instrumento de dominação de classe".
Então, identificava a estrutura jurídica como instrumento
de dominação. Depois de muitos anos, preparando aulas,
fui reler esses capítulos e descobri Marx dizendo o seguinte:
"Dialeticamente, a luta da classe trabalhadora é constituir
um mínimo de legalidade, ainda que no espaço burguês,
porque a lei é um instrumento mínimo de reconhecimento
da legitimidade da luta. Ainda que dialeticamente, isso vai ser superado".
Na minha cabeça, vinha mais ou menos o seguinte: o que é
o espaço legal? É um espaço de negociação
do bem comum. Não se trata de você negar a diferença
de classes, de poder, de etnia, de gênero etc. Mas é preciso
que essas diferenças encontrem um lugar no qual você possa
traduzi-las em direitos eqüitativos.
Recentemente,
vimos uma discussão acalorada sobre o filme Tropa de Elite, de
José Padilha. Até mesmo parte da imprensa afirmou que
a película legitimava a questão da tortura e do assassinato,
o que vai contra o estado de direito. O que você acha disso?
O filme não está falando mentira, não está
dizendo: "Olha, é uma enorme ficção".
É uma narrativa da sociedade, mas não é a única.
Certamente, muitas pessoas viram o filme com a impressão de "é
assim mesmo, bandido tem de ser tratado assim" ou "polícia
é assim" etc. Mas também tem muita gente que ficou
muito horrorizada e disse: "Quero viver em uma sociedade na qual
a polícia seja respeitada, mas não por esse tipo de feito,
e sim pelo fato de que ela aplica a lei, usa a força dentro das
regras da sociedade e promove a segurança do cidadão".
Temos de prestar atenção ao fato de que houve um debate.
Acho o debate muito importante, é uma maneira de perceber outras
narrativas, outros entendimentos. Isso é explicar as diferenças.
Há algumas coisas que a sociedade precisa discutir. Por exemplo,
fico muito incomodado com o argumento que diz que os bandidos estão
muito mais armados do que a polícia. A pergunta é: como
as armas chegam aos bandidos? Chegam pelo supermercado, alguém
vai ali e compra, leva na sua bolsinha? Essa questão eu quero
saber e a polícia tem de explicar. Pois quem tem de ser responsabilizado
por isso são os órgãos de segurança. Não
adianta dizer que eles estão mais armados. A culpa é,
de fato, da polícia, porque não está exercendo
seu papel. Não quero transformar o debate em uma guerra entre
bandidos e mocinhos, na qual a polícia é o mocinho e bandido
é o bandido. Ou então fazer do bandido a vítima
e da polícia o algoz. Acho que nenhuma dessas posições
contribui para o debate. De qualquer maneira, não estou convencido
de que a sociedade brasileira é consensual no uso da força
indiscriminada para conter a violência.
Você acredita
que a pobreza gera violência?
Através de pesquisas muito sérias, que conheço
e respeito, os estudos mostram que não há uma relação
direta entre pobreza e violência. Eu poderia resumir em dois ou
três argumentos. A porcentagem de pessoas pobres que se envolveram
com o mundo do crime, nas suas mais diferentes inserções,
é muito pequena. Um estudo feito no Rio de Janeiro estima que
apenas 1% da população dos bairros populares, das favelas,
ligada ao mundo do crime. Não dá para você estabelecer
uma relação direta entre pobreza e violência, a
evidência empírica mostra: as cidades mais pobres do país
não são as mais violentas. A violência, de fato,
é um fenômeno das metrópoles. Claro, você
tem hoje cidades médias, com população de 500 mil
habitantes e taxas crescentes de violência. Uma das razões
é porque a riqueza está se deslocando dos grandes centros
para o interior do país. E minha hipótese é que
a criminalidade, sobretudo de perfil organizado, segue a rota da riqueza,
não a rota da pobreza. Agora, o que nós podemos verificar
é que existe uma co-relação estatística
entre más condições de infra-estrutura urbana,
população pobre e vítimas preferenciais da violência.
O que eu prefiro dizer é mais ou menos o seguinte: a pobreza
e a desigualdade não explicam o crime, o crime está disseminado
por toda a sociedade. Mas elas explicam, provavelmente, a maior incidência
da criminalização e da punição sobre os
mais pobres.
Em outubro deste
ano, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo do apresentador da
TV Globo Luciano Huck, que acabara de ter o relógio roubado.
O texto gerou várias reações contrárias,
inclusive do escritor Ferréz, que também fez um artigo
para o mesmo jornal criticando o apresentador. Como você analisa
essa discussão?
Para dizer a verdade, achei os dois artigos ruins. Porque ambos contribuem
para estigmatizar e tornar preconceituosos os protagonistas desses acontecimentos.
Acho legítimo que ele [Luciano Huck] manifeste a sua indignação.
Agora, aquela idéia de dizer: "Eu pago imposto, contribuo
para a sociedade, dirijo uma organização social e estou
fazendo a minha parte", na verdade, não é suficiente.
Além disso, em um certo sentido ele justificou que a única
forma de resolver [a violência] seria com essa polícia
violenta e exterminadora. É uma mensagem ambígua. E achei
o artigo do Ferréz péssimo pelo seguinte: ele pode ter
falado muitas verdades no que escreveu, mas ele estigmatizou. Porque,
na verdade, deu a entender que todo jovem morador da periferia é
um potencial criminoso. E isso não é verdade, nós
sabemos que não é assim. A idéia do Ferréz
é que, na realidade, todos os pobres são vítimas
e, portanto, cabe à sociedade compreender e entender que isso
é assim mesmo. Não acho isso uma boa. Acho que, nos dois
artigos, eles não conseguiram chegar a uma solução,
apontar caminhos nem saídas. E, quando você polariza essas
coisas, a tendência é exacerbar cenários e criar
figuras do bem e do mal.
Diante da falência
do Estado em combater o tráfico de drogas, e a violência
gerada por isso, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral,
levantou a questão da descriminalização das drogas
no Brasil. Como você vê isso?
Acho importante colocar o assunto em debate. Temos de discutir isso
sem preconceitos morais. É um pouco como a questão do
aborto. Se você continuar discutindo o aborto da perspectiva puramente
moral, não vamos andar muito. Temos de ver, sim, aspectos éticos
da condução dos atores que vão implementar políticas,
mas a gente tem de ter uma discussão menos apaixonada. E se a
sociedade estiver convencida disso, como vamos, politicamente, administrar
esse processo? Como vamos conversar com os parceiros? Como vamos implementar
essas políticas? Não é um processo político
simples, é muito complexo. Simplesmente dizer que sou a favor
ou contra pode ser uma atitude, pode ser uma postura, mas tem implicações.
E essas implicações precisam ser muito bem discutidas,
publicamente discutidas.
E quais seriam
os prós e os contras da descriminalização?
Acho essa questão da descriminalização bastante
complicada. Por um lado, existe um argumento que a gente não
pode deixar de lado: o fato de as drogas serem proibidas causa essa
enorme disputa, que de alguma maneira também influencia a incapacidade
do Estado. Quer dizer, o Estado tem de combater as drogas e também
a corrupção de uma parte de seus agentes, muitas vezes
envolvidos nos negócios do tráfico, do crime organizado.
A proibição, a ilegalidade das drogas tem esse efeito.
Muitas pessoas evocam o problema da proibição do álcool
nos Estados Unidos, e a quantidade de problemas que causou. Por outro
lado, a gente também precisa ter muita clareza em relação
ao impacto que a liberação das drogas terá em uma
sociedade como a nossa. Pode ser que a gente tenha uma violenta pressão
para um consumo abusivo, exagerado das drogas. A pergunta é:
quem serão as vítimas preferenciais disso? Nosso sistema
de saúde está preparado para atender essas vítimas?
Nós temos de ter muita clareza disso. Um jovem de classe média
poderá parar em uma clínica particular, ser tratado, desintoxicado,
e sei lá o que vai acontecer depois. Já um jovem da periferia
será atendido nos ambulatórios dos serviços públicos
de saúde. Segundo ponto, não se pode fazer uma política
de descriminalização unilateral. Se o Brasil descriminaliza
e os outros países da América Latina não, aqui
vira o paraíso.
Em um de seus
textos, você se refere à questão do racismo dentro
da Justiça. Gostaria que você falasse sobre essa pesquisa.
É uma pesquisa que fiz no início dos anos 90, na qual
analisei a distribuição de sentenças judiciais
condenatórias para réus brancos e negros que haviam cometido
o mesmo crime. O crime, no caso, era roubo qualificado. Verifiquei que,
comparando crimes rigorosamente idênticos cometidos por brancos
e negros, era maior a porcentagem de réus negros condenados em
relação aos réus brancos. Eram 68% de réus
negros condenados e 59% de réus brancos. É claro que isso
pode representar várias coisas. Pode ser que a Justiça
esteja sendo justa com os negros e mais flexível com os brancos.
Ou, ao contrário, os brancos podem estar sendo julgados de acordo
com as leis, e os negros com maior rigor punitivo. Não dá
para responder isso. De qualquer maneira, não posso dizer que
é porque o Judiciário seja racista, pois não fiz
a pesquisa com os agentes. Tenho os dados do processo, que me permitem
comparar uma coisa com outra. Mas ficou claro para mim que, por exemplo,
réus brancos e negros não tinham uma situação
econômica muito diferente. Os réus brancos eram um pouquinho
menos pobres, vamos dizer assim, do que os negros. Mas a diferença
era pouco significativa. Não querdizer que os brancos eram ricos
e os negros eram pobres. Enfim, percebi que o vínculo dos negros
com o mundo das leis e da proteção das leis era mais tênue
do que o dos brancos.
Os brancos eram
mais esclarecidos?
Os brancos se apoiavam proporcionalmente mais em advogados particulares
do que os negros. É claro que você poderia dizer: "É
porque o serviço de advogados particulares é melhor".
Não necessariamente. Eu não posso fazer um julgamento
de valor a respeito da qualidade dos serviços. Mas, por exemplo,
percebi que aparentemente os brancos tinham sempre alguma referência
no mundo da legalidade. Ou seja, conheciam um advogado, sabiam quem
eram as testemunhas. Eles mobilizavam os recursos legais com maior sucesso
do que os negros. Isso me mostrava mais ou menos o seguinte: alguns
têm mais acesso ao mundo das leis e da proteção
das instituições legais do que outros. Isso me pareceu
ser a grande diferença entre os dois. O problema é a falta
de acesso aos direitos, às instituições. Brancos
e negros têm acesso diferenciado às instituições
de proteção legal. É basicamente isso que verifiquei.
Conduzi esse estudo com muito cuidado, com muito rigor estatístico
e de coleta de dados, mas ainda precisaria fazer muitos estudos para
poder confirmar essas hipóteses.
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