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O Povo Online
18/01/2008
Em entrevista exclusiva ao O POVO, o sociólogo estadunidense Barry Glassner afirma que a "cultura do medo" pode beneficiar grupos políticos e econômicos
Em determinado momento de Tiros em Columbine (2002), o documentarista
Michel Moore e o sociólogo Barry Glassner dialogam diante do famoso
letreiro com a palavra Hollywood, em Los Angeles (EUA), em uma esquina
de um bairro de descendentes de mexicanos. "Estamos aqui, dois caras
brancos, em uma esquina tida como perigosíssima, e a possibilidade de
sermos atacados é mínima", afirma Glassner. "Em compensação, a poluição
é tanta que dificulta nossa visão do letreiro", rebate Moore. O filme,
vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2003, teve como fio
condutor o livro Cultura do Medo (Editora Francis, 2003), onde Glassner
disseca a teia social que constrói o medo nas sociedades
contemporâneas.
A "cultura do medo" faz como que temamos, "freqüentemente, as
coisas erradas". "Um dos paradoxos é que os problemas sérios continuam
amplamente ignorados, ainda que causem exatamente os perigos mais
abominados pela população. A pobreza, por exemplo, correlaciona-se com
molestamento de crianças, crimes e consumo de drogas. A desigualdade de
renda também se associa com resultados diversos para a sociedade como
um todo. Quanto maior a diferença entre ricos e pobres em uma
sociedade, maiores são os índices de mortalidade provocados por doenças
cardíacas, câncer e homicídio", escreve.
Para o professor do Departamento de Sociologia da Southern
Califórnia (EUA), escolhe-se abordar supostas "tendências" de
"estudantes assassinos" ou de "fúria no trânsito" ao invés de
desigualdade social, falta de educação ou saúde para todos, por
exemplo, porque o medo dá lucro. "Muito poder e dinheiro estão à espera
daqueles que penetram em nossas inseguranças emocionais e nos fornecem
substitutos simbólicos", escreve. Parte da mídia, que extrai audiência
da dramatização e da espetacularização de casos específicos; políticos
que se apóiam no medo para acuar a população e garimpar votos; outros
grupos com interesses diversos, políticos e religiosos.
No prefácio à edição brasileira, o sociólogo Paulo Sérgio
Pinheiro, criador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de
São Paulo, sublinha a "similaridade inquietante" do panorama
estadunidense com a realidade brasileira, "ainda que o país viva uma
epidemia de homicídios, de seqüestros e banditismo que concede o
benefício da dúvida aos paranóicos e acossados pela cultura do medo".
Afinal, "os EUA e o Brasil têm muito em comum quanto à violência: entre
os dez países mais industrializados, ambos têm as mais altas taxas de
homicídios". "A incapacidade brasileira de enfrentar a violência urbana
tem o mesmo fundamento da americana: qualquer mudança em sociedades tão
desiguais é vista e sentida com pavor. E continuamos a investir nossos
medos nos alvos mais improváveis, a dissimular o que efetivamente nos
inquieta", conclui.
Em entrevista por telefone ao O POVO, Barry Glassner discorreu sobre os mecanismos da "cultura do medo". (Natália Paiva)
O POVO - Em primeiro lugar, o que o senhor chama de "cultura do medo"? Em que contexto social esse fenômeno emergiu?
Barry Glassner - Eu acredito que estamos vivendo em tempos
muito seguros, de forma geral. As pessoas estão vivendo mais e de forma
mais segura do que viviam no passado, na maioria dos lugares. E ainda
assim existem altos níveis de medo. Isso vem, primordialmente, de
grupos e indivíduos que promovem o medo e o pânico para seu próprio
benefício. Então, a cultura do medo vem principalmente da ação desses
grupos, o que inclui partes da mídia, de políticos e de grupos que
defendem uma ou outra posição particular. Sempre houve medos sendo
promovidos nas sociedades, ao longo da história. O que é diferente
agora é que existem grupos bastante poderosos que estão fazendo isso e
existe um grande aparato midiático para levar pânico à população, de
forma bastante rápida e eficiente. Eu acredito que a cultura do medo
emerge lentamente. Mas se tivéssemos de designar um momento particular,
seria quando a mídia eletrônica se torna dominante. É quando as pessoas
não precisam mais esperar para que as notícias cheguem até elas por
meio de um longo processo, quando elas recebiam notícias apenas uma vez
por dia ou por semana. Quando a mídia passa a ser simultânea, a coisa
muda.
OP - O senhor diz que uma das pistas mais importantes que
temos para perceber se há promoção exagerada do medo é quando
incidentes isolados de violência são tratados como tendências. O senhor
poderia explicar melhor como isso ocorre?
Barry Glassner - O que acontece é que um evento assustador
ocorre e se dá um foco bem além do que ele merecia ter. Então,
políticos, mídia e outros grupos usam o incidente para seus próprios
interesses, sugerindo que aquele incidente particular ou um número
pequeno de incidentes indicam que existe uma tendência muito maior, a
qual a população deveria temer. Quando, na verdade, normalmente não há
tendência alguma.
OP - O senhor já demonstrou que, na "cultura do medo", acaba
se tirando o foco de assuntos bastante importantes para a sociedade. Em
países como Estados Unidos e Brasil, onde há grandes desigualdades
sociais, quais são as conseqüências do medo?
Barry Glassner - Tipicamente, o que ocorre é que essas
campanhas particularmente focadas no medo tiram do foco preocupações
sobre problemas que afetam um número muito maior de pessoas, como
enormes desigualdades entre grupos, descriminação contra grupos ou
padrões de crimes que estão de fato afetando mais pessoas, mas que não
ganham foco. A conseqüência da cultura do medo é que recursos sociais
são gastos em problemas menos perigosos, ao invés de serem gastos em
problemas que estão afetando mais pessoas. E isso também contribui para
divisões e tensões entre grupos sociais.
OP - Em Cultura do Medo, o senhor menciona que,
historicamente, políticos têm usado o medo do crime e da violência para
varrer da mesa de discussões outras questões, como sistemas públicos de
saúde. Como o medo é usado para controlar as pessoas?
Barry Glassner - Do ponto de vista dos políticos, pode ser
bastante útil fazer a população focar problemas menores ou problemas
com os quais eles, políticos, são capazes de lidar, e deixar de lado
problemas que são de fato muito mais complicados, ou custam mais
dinheiro, ou com os quais não querem lidar ou são incapazes de fazê-lo.
Então, por exemplo, há várias questões importantes sobre acessibilidade
à saúde e ao emprego. Mas é muito mais conveniente para um político
manter o foco sobre grupos perigosos, ou sobre grupos que são
presumidamente perigosos.
OP - No livro, o senhor diz que os estadunidenses passaram a
temer cada vez mais certos tipos de crime, apesar de as estatísticas
estarem diminuindo. Em certas cidades brasileiras, o medo aumenta, mas
as estatísticas também. Como a cultura do medo pode se disseminar em
contextos de real aumento da criminalidade?
Barry Glassner - O que ocorre na maioria dos países é que a
criminalidade aumenta e diminui o tempo todo. Mas não é verdade que
haja grandes crescimentos nas taxas de crime. O que eu particularmente
descobri e o que me interessa é que o nível do medo do crime em uma
população não se assemelha às reais taxas de crime. Então, o medo do
crime não tende a ser maior quando as reais taxas estão altas.
OP - Então, o componente simbólico do medo é mais importante do que a experiência real com a violência?
Barry Glassner - Bem, lembre-se: a maioria das pessoas nunca
teve experiência direta com a violência. Então, mesmo que as taxas de
crime estejam altas, a maioria das pessoas não tem experiência do
crime. Então, é apenas o que elas ouvem. Também, é importante manter em
mente que quando as taxas de crime estão altas, geralmente os políticos
não querem muito o foco no crime, porque isso sugere que eles não estão
fazendo um bom trabalho. É mesmo paradoxal, mas é mais benéfico para um
político ter a população focada nas taxas de crime quando elas estão
baixas.
OP - Quais seriam as fronteiras entre uma cobertura jornalística informativa e uma produção disseminadora do medo?
Barry Glassner - Bem, é muito importante que jornalistas
cubram perigos e incidentes assustadores. Mas a distinção está entre
reportar perigos que são comuns e perigos que não são comuns,
misturando ambos. Então, o jornalismo responsável foca os perigos que
estão, de fato, sendo prevalentes. E, mais importante: deixa claro para
a audiência ou para os leitores qual o real nível de perigo de
determinadas circunstâncias. Um bom exemplo é o rapto de crianças por
estranhos. Especialmente nos EUA, mas pelo que eu entendo no Brasil
também, é uma história grandiosa, quando na verdade a probabilidade de
uma criança ser raptada por estranhos e mantida em um lugar por certo
período de tempo é pequena. Não é uma coisa com a qual os pais precisam
se preocupar. Então, ao focar isso, dramatizando, jornalistas estão
fazendo um desserviço.
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